sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Tenho cancro e agora?

Depois do diagnóstico de um cancro muita coisa muda na nossa vida. Repensa-se tudo. De repente percebemos que nos andávamos a queixar de coisas completamente irrelevantes. E tudo muda. O que considerávamos problemas até aí deixam de o ser. E tudo se centra no cancro e no que temos de fazer para o combater. Queremos que tudo se resolva o mais rápido possível e a nossa vida volte a ser o que era. Erro nosso. Nunca mais nada será como antes.

Quando saí daquele gabinete naquele dia fatídico enfiei-me no carro e desabei. O carro sempre foi um bom sítio para chorar e naquele dia cumpriu essa função mais do que nunca. Desfeita em mil pedaços, liguei para uma das pessoas que mais admiro e mais adoro - a minha mãe - a contar-lhe. A minha mãe disse-me para eu ter calma e disse que vinha ter comigo daí a umas horas. E assim foi. Quando eu dei conta, tinha a casa cheia de gente nesse dia. As amigas, sempre impecáveis. Alguma família. Eu, que na altura morava sozinha, gostei de sentir aquele apoio. Fiquei melhor, sem dúvida.

Mas um dos problemas com o qual nos temos de habituar a lidar é com o facto de os outros (não todos) passarem a ver o cancro e não a pessoa. Graças a Deus, e tirando as cicatrizes com que fiquei (que são mais do que muitas hoje em dia) mas que o cabelo tapa na perfeição, não perdi peso, não tive dores - tirando as cirúrgicas,  não fiquei sem cor, fiz sempre a minha vida normal, trabalhei (tirando na altura das cirurgias) e mesmo nos dias mais tristes em que acordava com umas olheiras do tamanho do mundo, arranjava-me e maquilhava-me sempre. Sempre achei que no melhor ou no pior, devemos estar sempre impecáveis (a não ser que nos falte força e vontade para tal) e a sentir-nos bem connosco. Ou seja, as pessoas olhavam para mim e nunca lhes passava pela cabeça que eu tivesse cancro. Mas, mal sabiam que eu tinha cancro era a desgraça total. Os olhares de pena, as lágrimas nos olhos e as palmadinhas nas costas multiplicavam-se e isso incomodava-me um pouco, confesso. Muitas vezes, as pessoas não se aperecebem, mas se há coisa que um doente de cancro não quererá é ser tratado de forma diferente só porque teve o azar de lhe sair essa doença na rifa. Isso incomodava-me a tal ponto que cheguei mesmo a proibir toda a gente que estava à minha volta de ter esse tipo de comportamentos à minha frente e isso até deu azo a vários episódios engraçados e divertidos que ainda hoje guardo na minha memória.

3 comentários:

Mia disse...

Olá Kitty! Leio os teus blogs sempre que posso e adoro, se bem que este é mais "triste" pelo tema que trata.

Identifiquei-me muito com este post. Eu tenho esclerose múltipla há 5 anos, faço e sempre fiz a minha vida normal, tirando o facto de ter tido 1 surto e muito de vez em quando alguns pequenos e, graças a Deus, insignificantes sintomas da doença, e claro, também tirando o facto de levar uma injecção uma vez por semana.

Ninguém sabe da minha doença. Sempre soube que uma vez que eu dissesse que era doente, seria vista de outra forma e, como a EM é uma doença crónica, teria o olhar de pena de amigos e conhecidos para o resto da vida. E claro, eu sou muito mais que isso e até agora faço uma vida perfeitamente normal, trabalho, danço, viajo, faço jogging, tenho uma vida extremamente preenchida com esperança de continuar assim sempre.

Por isso entendo perfeitamente o que sentiste em relação aos outros quando souberam da tua doença. Muitas vezes o problema dessas pessoas é andarem mal informadas e algumas até acharem que a vida quase que acaba ali.

Beijinhos

Rita E Carolina disse...

Nunca passei por uma situação parecida mas percebo o que dizes. Querias continuar a ser a mesma, a Kitty Fane maquilhada e vaidosa, a ser vista da mesma forma que antes.

Acredito também que as pessoas não o fazem por mal mas às vezes deve custar ver toda essa preocupação quando tu própria já devias estar num turbilhão!

Contudo percebo que tiveste imenso apoio e isso é o mais importante. São em alturas como estas que se vêem quais as pessoas que vão estar connosco para o melhor e para o pior.

Quero muito continuar a conhecer esta tua jornada :)

Beijinhos grandes querida*

Rita

Tsuri disse...

Estou abismada. A tua capacidade de resolução é impressionante. Grande pessoa que és!